No qual o poeta responde à senhora Janete de Pompalona, sua senhoria, sobre os infortúnios do PC sem mouse. Com uma rápida interferência do sr. Steve Jobs, CEO.

Uno

Sonho com Steve Jobs ministrando um curso de Windows. Aula 3: atalhos do Windows. Ele abre a gaveta procurando o pincel, mas não está lá. Olha para os lados. Usa uma terrível camisa de boliche e está sem óculos. “Windows + D, vai para a área de trabalho. Vocês já pensaram nisso? Windows + D? Por que eu não pensei nisso antes? É uma ideia tão elegante. Windows + D e você vai para a área de trabalho. Eu queria ter pensado nisso.” Steve faz um pouco de silêncio.

Duos

Trabalho em um computador sem mouse. Passeio pela tela com o TAB. Deslizo. A senhoria reclama do barulho do teclado. TAB. “Não posso, minha senhora, pois não tenho mouse, minha senhora”. Choramos. 

45, 18, 06, 31, 02, 146, 22, 146

Queria ser uma pessoa melhor, mas não sabia por onde começar. Comprou duas dúzias de caixas de Band-Aid e espalhou pela casa, certo de que colheria os primeiros resultados em breve. Foi encontrado morto duas semanas depois, vítima de um terrível acidente com pregos.

XXX

O reitor interrompe seu discurso, toma o último gole de água e conclui: “Se eu deixo de escovar os dentes para sair mais cedo de casa e, na esquina, sou atropelado por um caminhão, existe uma relação direta entre minha falta de asseio e minha morte. Pois, se escovo os dentes, demoro a sair de casa e escapo do atropelamento, não? Em compensação, ao me atropelar, o caminhão deixou de matar a velha que atravessaria a rua na sua frente em poucos minutos. Assim, minha falta de asseio causa minha morte, mas salva a velha. Ou talvez a velha morra mesmo assim, atingida pelo raio que cairá na cidade em meia hora. Mas se a velha deixa de escovar dentes, sai mais cedo de casa e consegue chegar ao seu destino a tempo, concluímos, por analogia com o caso anterior, que a falta de asseio acaba de salvar-lhe a vida”.

XXX

O professor organiza a mesa. Em cinquenta anos juntou mais papeis do que o que seria sensato. Olha o primeiro da pilha: “Lista de presença”. Tenta reconhecer algum nome. Nada. Tira com os dedos a poeira que se acumula no canto esquerdo da mesa. Espirra. Levanta para tomar água. Duas horas depois telefona para a esposa. Pede o divórcio. Escova os dentes.        

XXX

Comentam que o chefe fugiu sem explicar motivos. Na sexta tomou cerveja com Roberval, mas Roberval garante que não havia nada de errado com o chefe. “Conversamos sobre o trabalho, a rodada do fim de semana, essas coisas”. O bilhete de despedida tampouco esclarece algo. Conforme o papelucho que a esposa entregou à polícia, está lá, no verso de um boletim do filho mais novo:

“Querida, não comprei o molho que você pediu, pois o preço me pareceu abusivo. Procure no supermercado do centro, que tem preços melhores. Estou saindo de casa e não pretendo voltar. Foi um prazer. Obrigado.”

A prova caligráfica atesta a legitimidade do bilhete. A esposa não consegue apontar a causa da fuga.

Voltará para casa trinta anos depois. Pedirá desculpas e ligará a TV para ver o futebol. O campeonato estará em sua fase decisiva.

XXX

Gritos na casa ao lado. Levanto para averiguar se há alguma urgência. Apenas uma barata. Espanco a vizinha.

XXX

“Alguém viu minhas chinelas?”

Como ser engraçado

Um amigo costumava rir folgadamente sem nenhum motivo identificável. Um dia perguntei o que lhe causava as crises. Eis a sua resposta:

“O humor e a tragédia possuem a mesma causa comum: a quebra da expectativa. Se me dirijo ao trabalho e sou atropelado, isso é uma tragédia, porque a minha provável chegada é frustrada. Se trago um copo d’água e o derrubo sobre minha roupa, isso é uma comédia, pois a expectativa era de que eu trouxesse o copo a salvo até minha mesa. Por isso é tão fácil fazer comédia com situações dramáticas (imagine todas aquelas piadas com a morte) ou drama com situações cômicas (a traição é, por excelência, um enredo de bufonaria). Mas o que a maioria das pessoas não percebe é que todos os atos são frustrantes. Se me levanto para ir ao banheiro, esse é um evento completamente aleatório em meu dia, uma interrupção no curso normal das minhas atividades e, portanto, uma frustração. Minhas próprias atividades são aleatórias. Imagine que, por inércia, deveria permanecer dormindo o dia inteiro, um corpo em repouso. Se acordo para trabalhar, tenho uma frustração do plano inicial, que era dormir o dia inteiro. Se as pessoas prestam atenção ao que acontece ao seu redor, tudo é cômico, ou trágico. Posso chorar ao ver alguém calçando um sapato ou rir de uma garçonete servindo refrigerante. É tudo uma questão de atenção”.

Não tenho certeza se entendi todas as implicações do argumento do meu amigo. Mas, pela ideia proposta, posso encontrar tanto humor no relato da Paixão de Cristo como em um filme de Chaplin. Da mesma forma, posso chorar de tristeza ao ganhar na loteria. Não creio na aplicação prática de tal teoria, mas é fato que meu amigo sorria enquanto aguardava na recepção do hospital, tendo um infarto.

Causa sui

1. O sr. Epitácio vê os dentes no espelho. O tártaro é um problema sério, que requer especialista.

2. O cachorro dobra a esquina. Em cinco minutos ele será atropelado, mas não morto.

3. O copo cai.

4. O sr. Hemingway acende o terceiro cigarro da noite. Nesse ponto não há saída e ele rasga a página.

5. Ela segue, mas erra o caminho. Devia ter entrado duas ruas atrás.

6. A loja anuncia a contratação de 50 novos funcionários. Recebendo currículos.

7. A tempestade se aproxima do litoral.

Cartas licenciosas II

Oi.

Não, não assisto Glee.

Comprei um novo par de tênis. Brooks Trance 7. Possui entressola de Mogo, o que deve aumentar sua vida útil. Depois conto o resultado. Qual o seu atual sistema de amortecimento? Você ainda corre de All Star?

De fato, você não deveria se preocupar com os sapatos. Já falei, não percebi.

Não é verdade que eu tenha restrições à prova cosmológica da existência de Deus. Ao contrário, acho-a irrefutável. Tenho restrições ao cartesianismo. Todo o pensamento de Descartes está baseado na seqüência “Eu existo. Logo, Deus existe. Logo, o resto do mundo existe”. É o autismo aplicado à teoria geral das coisas. Que a filosofia medieval tenha sido substituída por isso é prova inconteste da decadência da civilização.

Não entendi o objetivo, mas segue a lista que você me pediu:

.maçãs

.iogurte natural

.Scientific American (edição de agosto)

.Hershey’s

.desinfetante

.leite

.pilhas (4)

.Lucky Strike (red)

.pão integral

.laranjas

Não ando lendo nada de importante (só uns gibis da Vertigo), mas comprei o Roger Scruton que você recomendou. Pretendo iniciá-lo este fim de semana. Meu irmão me mandou revistas, basicamente pornografia. Nenhuma carta acompanhando. Portanto, ainda não tenho notícias precisas dele.

E como vão os peixes?

Seu, sempre seu,

P.

Cartas licenciosas I

Oi.

Você está certa no que diz respeito ao deslocamento diagonal. Ganhei 27 segundos na última série e tudo indica que os resultados tendem a melhorar. Quanto aos alongamentos, você conhece minha opinião. Considero-os inúteis e indecorosos quando feitos em público. Recomendo a suspensão imediata.

Não se preocupe com os sapatos. Eu não prestei atenção.

Discordo da sua posição sobre o círculo cartesiano. Se os julgamentos nítidos dependem da prova cosmológica da existência de Deus, e se a prova cosmológica depende dos julgamentos nítidos, temos, sim, um círculo vicioso. E é mentira que Descartes o tenha refutado. Ele se recusava a julgar suas conclusões auto-evidentes.

No mais, alimente os peixes e abra a caixa uma vez por semana.

Seu, sempre seu,

P.

Auto-entrevista

  • Eu: Qual sua opinião sobre a sodomia na terceira idade?
  • Eu: E por que diabos eu teria uma opinião sobre isso?
  • Eu: Sei lá. Eu tenho.
  • Eu: Problema seu.
  • Eu: Fale-me sobre o livro que você está escrevendo?
  • Eu: Vai revolucionar a técnica do romance. Trata-se de um estilo que eu mesmo chamo de ultra-realismo minimalista. É uma descrição de mim mesmo escrevendo um romance sobre mim mesmo escrevendo um romance sobre mim mesmo escrevendo um romance sobre mim mesmo e assim por diante.
  • Eu: E como isso acaba?
  • Eu: Atualmente, estou na página 12.314, mas reconheço que o projeto é ambicioso demais para ser concluído no prazo de uma vida humana. Pretendo deixá-lo para que meus seguidores dêem continuidade à ideia.
  • Eu: E não acontece mais nada além de você mesmo escrevendo um romance sobre você mesmo escrevendo um romance e tudo o mais?
  • Eu: Uma das versões de mim mesmo escrevendo um romance sobre mim mesmo escrevendo um romance sofre de difteria. Mas não informo isso no romance e deixo para que os leitores tirem suas próprias conclusões.
  • Eu: O que o gato de Schrödinger diria de dentro da caixa?
  • Eu: Se o gato fala alguma coisa é porque está vivo. Portanto não existe paradoxo.
  • Eu: É claro que o gato está vivo. O paradoxo é ele estar vivo e morto ao mesmo tempo.
  • Eu: Mas se algum elemento externo interfere na experiência (no caso, um ouvinte para o que diz o gato) o paradoxo deixa de existir e o gato está vivo ou morto, não vivo e morto.
  • Eu: Hipoteticamente, o que diria o gato de dentro da caixa?
  • Eu: Não trabalho com hipóteses.
  • Eu: Qual sua atriz pornô favorita?
  • Eu: Rita Pavone.
  • Eu: Quais seus tons de azul favoritos?
  • Eu: Não acredito na existência do azul.
  • Eu: No azul arquétipo?
  • Eu: Não existem arquétipos. Se eu sou cego, não existe azul.
  • Eu: No caso da sua cegueira, o azul não existe por uma deficiência na sua percepção, não por sua ausência da realidade.
  • Eu: Isso confirma a minha afirmação: o azul depende unicamente da existência de sentidos que o percebam. Se os sentidos não existem, o azul também não pode existir essencialmente.
  • Eu: Como você poderia saber? Você está dizendo que o que você não percebe não existe?
  • Eu: Talvez.
  • Eu: Chá de quê?
  • Eu: Não sei.
  • Eu: Quem você seria no século XIX?
  • Eu: Sua mãe.
  • Eu: O que o gato de Schrödinger diria se estivesse resfriado?
  • Eu: Eu já respondi. Se ele fala, não existe paradoxo.
  • Eu: O que o gato de Schrödinger diria se fosse sua mãe?
  • Eu: Talvez ele me desse alguns conselhos.
  • Eu: Que tipo de conselhos?
  • Eu: Sei lá... mantenha as meias secas.
  • Eu: O que fazer em caso de fim do mundo?
  • Eu: O de sempre. No dia do Juízo Final, as pessoas serão divididas entre aquelas que agiram com sobriedade na hora da morte e aquelas que desmiolaram. As últimas serão expostas para que as primeiras possam rir delas. Será o Grande Bulling do Fim dos Tempos.
  • Eu: Kant refutou a prova ontológica da existência de Deus?
  • Eu: Não.
  • Eu: O que o gato de Schrödinger diria se fosse a Rita Pavone?
  • Eu: Por que alguém exporia a Rita Pavone à incoerência quântica?
  • Eu: Por que alguém exporia um gato?
  • Eu: Sei lá.
  • Eu: Obrigado pela entrevista.
  • Eu: Foi um prazer.
  • Eu: E vá pro Diabo.
  • Eu: Você também.

Grandes nomes minúsculos do sport: Mab Kayleigh

            Do banco, Kayleigh orienta a formação do seu Triângulo Map: “Mantenham dois ângulos congruentes, porra!”

Polêmico técnico irlandês, famoso por seus esquemas táticos alternativos. Chegou a ser bi-campeão da Premier Division, treinando o Finn Harps Ballybofey, mas teve seus títulos cassados judicialmente. Em 1973, Kayleigh assume o FC Drumcondra, criando o revolucionário 1-2-3-4, conhecido como o “Triângulo Mab”. Nesse esquema, os jogadores se dispunham em mini-triângulos isósceles, trocando passes em diagonal com seus respectivos vértices. Apesar de original, o 1-2-3-4 foi superado pelo próprio Kayleigh, ainda no Drumcondra, com o 6-4, onde os jogadores se posicionavam exatamente na linha de passe o “Triângulo Mab”. Em 1976, o treinador assume o comando do Finn Harps Ballybofey, conquistando dois títulos nacionais com o inédito esquema 2-2-3-1-3. Apesar do sucesso da experiência, os títulos foram posteriormente contestados por uma junta de matemáticos, que comprovaram que a equipe de Mab entrava em campo com 12 jogadores. Mesmo perdendo os títulos, Keyleigh foi inocentado após um longo processo na justiça desportiva, voltando a exercer a função de treinador na década de 80 (sua justificativa para o fato de escalar um jogador a mais - “Ah, é? Eu nem tinha notado” - não só convenceu o júri, como comoveu a opinião pública). Seu retorno ao futebol, apesar de cercado de expectativas, decepcionou os fãs, resultado de sucessivos fracassos em campo. No Sligo Rovers, trabalhou o 1-1-1-1-1-1-1-1-1-1, onde os jogadores se dispunham em fila indiana, podendo se movimentar apenas horizontalmente. O Sligo terminou rebaixado ao final da temporada 81-82, tendo somado 0 pontos em 38 rodadas. No St. Patrick’s Athletic FC, experimentou o 4-3-2, sendo mais uma vez perseguido por matemáticos, que não conseguiram enxergar as vantagens de se entrar em campo com apenas dez jogadores. No Wexford Youths FC, trabalhou com o 0-0-10, no que é considerado o esquema mais ofensivo da história do futebol (responsável ainda por emocionantes partidas como Wexford X Cork City, em maio de 86, com placar final de 79 a 61 para o City). Mab largou o futebol na temporada 86-87, quando passou a dedicar-se exclusivamente ao açougue da família em Dublin. Seu legado, porém, ainda é lembrado por nomes como Vanderley Luxemburgo, Cuca e Pepe Guardiola.

comicsalliance:

David Bowie’s “Space Oddity” Recreated As Children’s Book

ComicsAlliance readers should by now be familiar with the work of Andrew Kolb. We’ve spotlighted the illustrator’s work a couple of times before, first for his groovy representations of The Walking Dead and other beloved artifacts of pop culture, and most recently for his work with some of comics, film and television’s most famous double-acts like The Muppets’ Bunson and Beaker and Kevin Smith’s Jay and Silent Bob, but in the style of carved wooden blocks.

Kolb’s latest work is more ambitious, telling the story of David Bowie’s classic “Space Oddity” in the style of an illustrated children’s book. The tale of doomed Major Tom plays out in Kolb’s bright and retro animation style, giving a face to the legendary Bowie character and making the conclusion that much sadder. 

Released in 1969 and considered a classic today, David Bowie’s “Space Oddity” is obviously a reference to Stanley Kubrick’s “2001: A Space Odyssey.” Like the film, Bowie’s song tells the story of an isolated astronaut whose life is threatened by a malfunction. Unfortunately for Bowie’s Major Tom, the character’s ultimate fate is decidedly grimmer than that of Kubrick’s Dave Bowman (Unless you want to get into Bowie’s “Ashes to Ashes” or the Pet Shop Boys remix of “Hallo Spaceboy” or the Peter Schilling fanfiction of “Coming Home”) 

If Bowie’s telling of the story sounds a bit dire from the start, Kolb’s reinterpretation is decidedly optimistic. Kolb’s illustrations also take their cues from that 1960s vision of the future seen in Kubrick’s films, but with the artist’s distinctly cheerful vibe that humanizes every aspect of the story, not the least of which are Major Tom’s space capsule and Ground Control themselves. Everything looks shiny and new, everybody is smiling and happy, and there’s no reason to think anything is going to go wrong. But of course it does, and in a way that fans of Bowie’s song will find quite clever. Without giving too much away, Kolb looked to the curious lyric, “And the stars look very different today” as a way to depict what exactly went wrong far above the moon.

Read the entire book at ComicsAlliance.

theartofanimation:

Xavier Collette